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Perspectivas

Governo Trump revela planos para uma “Grande América do Norte” enquanto a guerra com o Irã abala as economias da América Latina

Publicado originalmente em inglês em 7 de abril de 2026

Em 29 de março, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, descreveu uma nova doutrina estratégica denominada “Grande América do Norte”, que redefine explicitamente o Hemisfério Ocidental como um perímetro de segurança exclusivo dos EUA sob a liderança do presidente Donald Trump.

O Secretário da Guerra Pete Hegseth na primeira Conferência das Américas contra os Cartéis, realizada na sede do Comando Sul dos EUA, em Doral, na Flórida. [Photo: Air Force Staff Sgt. Madelyn Keech]

Em um discurso no quartel-general do Comando Sul dos EUA em Doral, no estado da Flórida, Hegseth declarou que “toda nação e território soberano ao norte do Equador, da Groenlândia ao Equador e do Alasca à Guiana”, está dentro deste “perímetro de segurança imediato” dos Estados Unidos.

Este anúncio foi acompanhado pela convocação, na semana anterior, do Departamento de Estado para uma conferência de governos aliados em junho ou julho, com o objetivo de coordenar o compartilhamento de informações e operações contra organizações de esquerda sob o pretexto de combater o “Antifa”. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou a criação de uma força-tarefa “para se concentrar na ameaça representada pelo Antifa”, sinalizando uma fusão entre repressão doméstica e dominação hemisférica.

Essa doutrina equivale à Doutrina Monroe turbinada — um plano preventivo para a recolonização hemisférica e regimes policiais apoiados pelos EUA, com o objetivo de esmagar explosões sociais iminentes, alimentadas pela disparada dos preços da gasolina, fertilizantes e alimentos, impulsionadas pela guerra de agressão dos EUA-Israel contra o Irã.

Enquanto Hitler invocava a luta contra o bolchevismo para justificar a submissão da Europa, Trump e Hegseth exigem que as Américas se unam como “nações cristãs sob Deus” contra o “narcocomunismo radical”.

Diversos comentaristas traçaram paralelos com o projeto sionista de “Grande Israel”, apoiado pelo imperialismo americano no Oriente Médio, mas a Grande América do Norte opera em uma escala muito maior, ecoando o Anschluss de Hitler — a anexação da Áustria à “Grande Alemanha”. Assim como Hitler incorporou alemães étnicos sob uma bandeira racial, Hegseth promove uma ideologia de supremacia religiosa, ambas servindo como disfarce para a escravização anticomunista das massas oprimidas.

A coincidência de datas não é mero acaso. O fechamento do Estreito de Ormuz desencadeou o que analistas chamaram de “bomba financeira” na América Latina, região dependente de importações, com os preços do petróleo subindo até 75% em países como o Peru, em meio à desvalorização cambial em relação ao dólar.

Os custos dos fertilizantes, essenciais para as gigantescas economias agroexportadoras da região, em países como Brasil, Argentina e Chile, aumentaram 30% desde o final de fevereiro, com a ureia — o fertilizante mais utilizado — registrando alta de 74,67% devido à guerra.

Esses choques remetem à crise do petróleo da década de 1970, que desencadeou dois dos maiores movimentos de massas da América Latina: as greves brasileiras de 1978-80, que envolveram mais de 100 mil metalúrgicos e quase derrubaram a ditadura militar, e os movimentos revolucionários contra ditadores apoiados pelos EUA em toda a América Central.

A visão de Hegseth dá continuidade explícita à coalizão batizada de “Escudo das Américas”, formada por regimes de extrema-direita latino-americanos, lançada por Trump no início de março. O WSWS descreveu isso como uma Operação Condor moderna — uma rede de ditaduras militares orquestrada pela CIA que coordenou repressão e golpes de Estado em todo o continente nas décadas de 1970 e 1980.

Esse programa contrarrevolucionário já está em andamento. A Venezuela foi transformada em um protetorado dos EUA após a operação de 3 de janeiro que depôs Nicolás Maduro, entregando suas riquezas petrolíferas à Chevron e à Shell. Cuba enfrenta um estrangulamento devido a um bloqueio de combustível, enquanto Trump ameaça abertamente que “Cuba será a próxima” a sofrer uma ação militar. As forças americanas bombardearam pequenos barcos de pesca no Caribe e no Pacífico, matando 163 homens no que fontes do Pentágono chamam de “ataques preventivos” contra o narcotráfico. No Equador, recentes operações militares conjuntas com o Pentágono envolveram a tortura de trabalhadores agrícolas e a queima de casas de pequenos agricultores sob o pretexto de combater o narcoterrorismo. As ameaças de invadir e bombardear o México, anexar a Groenlândia, tomar o Canal do Panamá e até mesmo absorver o Canadá aumentaram, juntamente com o apoio a regimes de extrema-direita em Honduras, Argentina, Costa Rica e Chile.

No início deste ano, a Casa Branca glorificou a Guerra entre México e EUA de 1846-48 — durante a qual os EUA tomaram metade do território mexicano para expandir a escravidão — apresentando-a como um precedente orientador para os dias atuais.

Desarranjo Econômico

Essa agressiva onda de recolonização responde à crescente devastação econômica na América Latina, a região mais desigual do mundo e uma das mais afetadas pela pandemia de COVID-19, pela guerra dos EUA e da OTAN na Ucrânia e, agora, pelo conflito com o Irã.

Os aumentos nos preços de fertilizantes e alimentos já foram centrais para o golpe parlamentar de 2022 contra Pedro Castillo, no Peru, desencadeando protestos em massa que foram recebidos com repressão violenta, resultando em dezenas de mortes.

Hoje, as consequências são muito mais amplas e agudas. No Chile, o aumento de 60% no preço do diesel e de 30% no preço da gasolina, promovido pelo presidente fascista eleito José Antonio Kast, provocou protestos em massa e manifestações como panelaços. No México, agricultores e caminhoneiros bloquearam estradas na segunda-feira em uma greve nacional, exigindo preços mais altos para os grãos. Os líderes dos protestos citaram explicitamente “novos problemas decorrentes da guerra no Irã, como o aumento nos custos do diesel e dos preços dos fertilizantes”. Isso ocorre em meio a uma onda de greves nos setores automotivo, educacional e industrial em todo o México, impulsionada por reivindicações salariais acima da inflação e por demissões em massa.

O novo objetivo estratégico, baseado nas lições das crises do petróleo da década de 1970, é esmagar quaisquer novas tentativas de levantes populares que possam desafiar o controle imperialista sobre minerais e recursos essenciais, bem como o acesso à mão de obra barata. O arcabouço de Hegseth se baseia em iniciativas do primeiro mandato de Trump, como o relatório de 2017 do think tank Atlantic Council sobre a “Aliança para a Prosperidade” na América Central, copresidido pelo criminoso de guerra John Negroponte e apresentado pelo ex-chefe de gabinete de Trump, John Kelly. O relatório enfatizava a “segurança da cadeia de suprimentos público-privada” para o transporte físico de mercadorias — um eufemismo para a militarização dos corredores de mão de obra barata na América do Norte, Central e do Sul, a fim de garantir sua utilização na produção bélica contra a China e a Rússia, enquanto minava os supostos “aliados” europeus.

Como o WSWS alertou em 2017, isso amplia o foco do Pentágono em “cadeias de suprimentos resilientes” para o interior do hemisfério, garantindo o acesso ao lítio no Triângulo do Lítio (Argentina, Bolívia e Chile), ao petróleo na Venezuela, ao cobre no Peru e no Chile e às exportações agrícolas do Brasil e da Argentina — tudo canalizado para a máquina de guerra dos EUA. O objetivo: uma rede de ditaduras militares e regimes fantoches para sufocar greves, protestos e movimentos revolucionários antes que eclodam.

Durante o evento online de Primeiro de Maio promovido pelo WSWS em 2019, Bill Van Auken enfatizou o “componente doméstico do hasteamento da bandeira maculada da Doutrina Monroe” pelo primeiro governo Trump, com o objetivo de promover o fascismo e um Estado policial dentro dos próprios EUA. Todo o establishment da política externa dos EUA — de democratas a republicanos — apoia esse Anschluss hemisférico. O New York Times e o Washington Post aplaudiram a operação na Venezuela, o bloqueio a Cuba e o “Escudo das Américas”.

Isso não é mera retórica. É o primeiro estágio da Terceira Guerra Mundial, fundindo a guerra na Ucrânia, o genocídio em Gaza e, agora, no Irã à subordinação hemisférica e à ditadura interna, em uma única ofensiva contrarrevolucionária.

O comentário casual de Trump em um fórum de investidores na semana passada — “Eu construí este grande exército. Eu disse que vocês nunca precisariam usá-lo, mas às vezes vão precisar. E Cuba é a próxima, aliás. Mas finjam que eu não disse isso, por favor” — revela a normalização banal da agressão.

O caminho a seguir

A classe trabalhadora, objetivamente unificada em cadeias de produção transnacionais, enfrenta inimigos comuns: os bancos de Wall Street, as corporações transnacionais, o imperialismo amaericano e as oligarquias nacionais da América Latina. Como Van Auken concluiu em 2019, “a classe trabalhadora... só pode encontrar um caminho a seguir por meio da unificação consciente dos trabalhadores americanos e latino-americanos na luta para derrotar seus inimigos comuns”.

Da greve dos trabalhadores da JBS em Greeley, no estado do Colorado, aos trabalhadores da GM em Silao e Tornel, no México, dos operários chilenos aos trabalhadores argentinos da indústria de pneus e aos metalúrgicos brasileiros, existe uma base objetiva para uma contraofensiva internacional. Comitês de base, independentes de todos os sindicatos pró-capitalistas, devem se coordenar além das fronteiras para defender empregos, acabar com as guerras e expropriar todas as grandes corporações.

A alternativa é a ditadura e a recolonização. A doutrina da Grande América do Norte é uma declaração de guerra contra a classe trabalhadora do hemisfério. A resposta deve ser um movimento socialista unificado para abolir o sistema de lucro que a alimenta, estabelecendo os Estados Socialistas Unidos das Américas.

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