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“O pior dos piores”: ICE detém assassino de esquadrão da morte chileno

Publicado originalmente em inglês em 19 de fevereiro de 2026

“Os piores dos piores” é uma frase repetida à exaustão por Donald Trump e seus apoiadores no Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) para justificar a onda de detenções do ICE contra trabalhadores imigrantes e cidadãos americanos. Ela transmite a mensagem inequívoca de que todos os imigrantes são criminosos e que muitos são culpados dos atos mais hediondos imagináveis, mesmo enquanto a população testemunha uma Gestapo americana fortemente armada prendendo crianças, brutalizando famílias e perseguindo indiscriminadamente trabalhadores agrícolas, de canteiros de obras, fábricas e estacionamentos.

Armando Fernández Larios no site “os piores dos piores” do DHS. [Photo: dhs.gov/wow]

Embora as próprias estatísticas do DHS mostrem que apenas um em cada 20 detidos pela repressão nacional possui antecedentes criminais violentos, e três quartos não possuem qualquer ficha criminal, a agência criou um site intitulado “Presos: Os piores dos piores”. Nele, são apresentadas fotos e breves informações sobre a identidade e os supostos crimes dos detidos recentemente. O conteúdo é decididamente decepcionante, com o “crime” mais frequente citado sendo a reentrada ilegal nos EUA, ou seja, as tentativas de mães, pais e filhos deportados de se reunirem com suas famílias. Outros listam delitos como posse de maconha, legalizada em grande parte do país, e infrações de trânsito de décadas atrás.

No entanto, em 27 de janeiro, o site destacou 42 chilenos que haviam sido detidos recentemente. O nono da lista era Armando Fernández Larios, alguém a quem o epíteto “o pior dos piores” pode ser justificadamente aplicado.

O crime listado contra Fernández Larios é homicídio. O site do DHS afirma que o homem de 76 anos foi detido em Fort Myers, no estado da Flórida. Registros do ICE indicam que ele está atualmente detido no centro de detenção de imigrantes de Krome, em Miami, aguardando deportação.

Os assassinatos pelos quais ele foi condenado ocorreram em 1976. As duas vítimas foram Orlando Letelier, um proeminente exilado chileno alvo da ditadura de Pinochet, e sua assistente, Ronni Moffitt, cidadã americana. Eles foram mortos por uma bomba ativada remotamente, colocada sob o carro em que estavam e detonada enquanto atravessavam a Sheridan Circle, na área das embaixadas em Washington, D.C., a apenas um quilômetro e meio da Casa Branca.

Letelier vivia exilado após o golpe militar de 1973 apoiado pelos EUA, que derrubou o governo da Unidade Popular do presidente Salvador Allende. Ele havia ocupado diversos cargos importantes no governo Allende, incluindo o de ministro das Relações Exteriores e ministro da Defesa, além de embaixador nos Estados Unidos.

Por esse ato flagrante de terrorismo de Estado em solo americano, Fernández Larios foi condenado a apenas oito anos de prisão e, desses, cumpriu apenas cinco meses. Seu principal colaborador nos assassinatos, Michael Townley, um fascista nascido nos EUA e agente tanto da CIA quanto da polícia secreta chilena, a Direção de Inteligência Nacional (DINA), garantiu um acordo semelhante. Ambos entraram para o programa de proteção a testemunhas e viveram sem serem incomodados sob a proteção de sucessivos governos americanos, democratas e republicanos, por quatro décadas.

Da mesma forma, três terroristas cubanos exilados, treinados pela CIA e recrutados para os assassinatos, tiveram suas condenações anuladas por uma questão técnica e retornaram a Miami, onde continuaram suas operações contra Cuba.

Letelier, que foi preso e torturado após o golpe de 1973, antes de ser exilado e ter sua cidadania cassada, foi alvo do ditador chileno General Augusto Pinochet por ser um dos principais opositores que defendiam um boicote internacional ao regime.

Embora o assassinato de Letelier e Moffitt tenha sido, sem dúvida, o mais conhecido dos crimes cometidos por Fernández Larios, ele foi apenas um entre muitos outros.

Como jovem oficial, treinado em métodos de tortura e repressão contrarrevolucionária na Escola das Américas do Pentágono, no Panamá, ele participou diretamente do cerco ao Palácio de La Moneda, em Santiago, em 11 de setembro de 1973. O ataque terminou com a morte do presidente Allende e a prisão de dezenas de seus assessores, que foram posteriormente presos, torturados e executados, e seus corpos despedaçados com dinamite.

A Caravana da Morte

Um ano após o golpe apoiado pelos EUA, Fernández Larios juntou-se ao que ficou conhecido como a Caravana da Morte, uma força-tarefa que percorria as cidades de helicóptero, torturando e assassinando mineiros, estudantes, professores, militantes sindicais, engenheiros e outros profissionais, além de políticos considerados simpáticos ao governo Allende.

Fernández Larios destacou-se por sua crueldade. A família de Winston Cabello, um economista que estava entre os 13 prisioneiros assassinados na cidade de Copiapó, no norte do Chile, apresentou provas em um processo civil contra o ex-oficial do Exército. Demonstraram que ele o torturou e assassinou, assim como outros prisioneiros, com um “corvo”, uma faca curva que é uma arma emblemática das Forças Armadas chilenas, usada para matar vítimas a golpes de facão.

Fernández Larios também era procurado em conexão com a brutal tortura e assassinato de Carmelo Soria, cidadão espanhol e representante da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) da ONU, que utilizou seu status diplomático para tentar salvar aqueles que estavam sendo caçados pela ditadura de Pinochet. Ele também foi implicado no sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento do engenheiro David Silverman, ex-gerente geral da mina estatal de cobre Chuquicamata.

Fernández Larios foi posteriormente designado para uma divisão internacional da DINA, encarregada de caçar e matar opositores da ditadura. Além dos assassinatos de Letelier e Moffitt, ele também foi implicado no assassinato, em 1974, do general Carlos Prats, ex-comandante do Exército que se opôs ao golpe de Pinochet, e de sua esposa, em Buenos Aires. As tentativas de um tribunal argentino de extraditar Fernández Larios para que ele respondesse pelas acusações dos assassinatos foram ignoradas pelo governo dos EUA, que se recusou a atender pelo menos cinco pedidos semelhantes feitos por autoridades chilenas pós-Pinochet.

Se Fernández Larios foi protegido por sucessivos governos dos EUA, tanto democratas quanto republicanos, ao longo de 40 anos, não foi meramente para o cumprimento de um acordo judicial com o Departamento de Justiça.

Em primeiro lugar, os crimes hediondos de Fernández Larios foram cometidos a mando de um regime militar fascista que chegou ao poder em grande parte graças à intervenção do governo dos EUA e da CIA, que sabotaram a economia do país, prepararam o terreno para o golpe de 1973 e apoiaram integralmente o reinado de terror desencadeado subsequentemente.

Os assassinatos de Letelier e Moffitt foram realizados como parte da Operação Condor, que tinha sido recentemente criada e uniu sete ditaduras latino-americanas apoiadas pelos EUA em sequestros, torturas e assassinatos transfronteiriços, todos executados com apoio financeiro, de inteligência e logístico do Pentágono e da CIA.

Uma figura-chave na organização dos assassinatos, sob ordens diretas de Pinochet, foi o chefe da DINA, Coronel Manuel Contreras, que foi julgado e condenado pelos crimes em 1993, após a queda da ditadura. Documentos confidenciais que vieram à tona posteriormente mostraram que Contreras estava na folha de pagamento da CIA como um importante “informante” no Chile.

Apenas três meses antes dos assassinatos em Washington, o secretário de Estado Henry Kissinger, um dos principais arquitetos do golpe chileno, viajou a Santiago para se encontrar com o general Pinochet e assegurar-lhe o apoio dos EUA, apesar da retórica vazia sobre direitos humanos. Em uma conversa na qual Pinochet expressou diretamente sua indignação com o trabalho de Letelier contra a ditadura, Kissinger disse a ele: “Nos Estados Unidos, como você sabe, simpatizamos com o que você está tentando fazer aqui. Acho que o governo anterior caminhava para o comunismo. Desejamos sucesso ao seu governo.”

Finalmente, em 16 de setembro de 1976, menos de uma semana antes dos assassinatos, Kissinger, sem qualquer explicação, interveio para impedir que o Departamento de Estado emitisse um alerta previamente combinado à ditadura, informando que o assassinato de políticos proeminentes e opositores no exterior poderia gerar problemas políticos.

Em outras palavras, os crimes cometidos por Fernández Larios estavam a serviço direto do imperialismo estadunidense e contavam com seu apoio. Diante desse histórico, a razão para ele ter sido detido pelo ICE após quatro décadas de proteção do governo americano permanece uma incógnita. Seria um caso de desconhecimento mútuo, com o ICE, pressionado por cotas, prendendo qualquer pessoa ao seu alcance? Ou o ex-agente da DINA teria perdido o apoio dos seus protetores americanos? Seja qual for o caso, é pouco provável que seu processo de deportação siga o curso normal.

No Chile, a detenção de Fernández Larios despertou grande interesse entre as famílias das vítimas e os defensores dos direitos humanos que ainda buscam justiça pelos crimes hediondos que ele cometeu há meio século. Também há dúvidas se de fato será punido.

Afinal, dado seu histórico sangrento, a ex-autoridade da DINA seria um forte candidato a um indulto de Donald Trump — se não a um cargo de consultor do DHS. Os apoiadores fascistas de Trump veneram abertamente Pinochet e celebram os crimes mais cruéis de seu regime como métodos que esperam replicar em solo americano.

No próprio Chile, José Antonio Kast, político de extrema-direita e filho de um ex-oficial da SS nazista, irá assumir a presidência no próximo mês. Um assumido admirador de Pinochet, ele visitou na prisão os condenados pelos crimes do regime e nomeou dois advogados pessoais do falecido ditador como seus ministros da Defesa e da Justiça. O novo governo certamente irá criar todos os obstáculos possíveis para impedir o julgamento de Fernández Larios.

Independentemente do destino individual do torturador e assassino da DINA, agora detido no centro de detenção do ICE na Flórida, os crimes horríveis que ele cometeu há 50 anos ressoam intensamente nos dias de hoje. Eles são uma manifestação sinistra do terrível preço pago pela classe trabalhadora chilena, e de fato internacional, pela traição à onda revolucionária que varreu o país no início da década de 1970, pelas mãos do stalinismo, da socialdemocracia e das diversas organizações revisionistas pablistas que, juntas, trabalharam para subordinar a classe trabalhadora ao aparato estatal capitalista e aos interesses de lucro.

À medida que o governo Trump e governos capitalistas em todo o mundo se voltam para os métodos do fascismo e da ditadura policial, as lições desse período devem ser assimiladas e uma direção socialista e internacionalista revolucionária deve ser construída na classe trabalhadora a tempo.

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